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Prefeituras gastam R$ 5 bilhões com shows enquanto cidades enfrentam crise fiscal, revela investigação

Levantamento aponta uso de contratações sem licitação e cachês inflacionados, inclusive em municípios com salários atrasados e falta de serviços básicos

Uma investigação do UOL revelou que prefeituras de todo o país destinaram cerca de R$ 5 bilhões para a contratação de shows musicais nos últimos dois anos. Desse total, mais de R$ 2 bilhões foram gastos por municípios com baixo desempenho em indicadores fiscais, cenário que inclui dívidas, atraso de salários e dificuldades na manutenção de serviços públicos essenciais. O tema é debatido no podcast UOL Prime, em conversa entre o jornalista José Roberto de Toledo e o repórter Tiago Mali.

Um dos casos destacados é o de Quijingue, onde a prefeitura decretou calamidade pública e enfrenta atrasos salariais há mais de um ano. Apesar disso, o município ampliou em quatro vezes os gastos com shows para o São João. “O Ministério Público tem uma série de documentos mostrando falta de medicamentos, restrição de horário das unidades de atendimento à saúde, falta de condições de trabalho, salas de atendimento mofadas… Há uma série de carências evidentes enquanto esses artistas estão sendo contratados”, afirmou Mali.

Segundo a apuração, todos os contratos analisados foram realizados por meio de inexigibilidade — mecanismo que dispensa licitação sob a justificativa de exclusividade do artista. Na prática, o modelo permite contratações diretas, sem concorrência pública, o que resulta em variações expressivas nos valores pagos.

Entre os exemplos citados, o cantor Gusttavo Lima recebeu R$ 900 mil da prefeitura de Petrolina e, no dia seguinte, R$ 1,2 milhão em Maceió pela mesma apresentação em festas juninas de 2024. Já o artista Leonardo, que costuma ser contratado por até R$ 800 mil, recebeu R$ 2,3 milhões do estado de Roraima para o Réveillon de 2026.

A reportagem também aponta que o crescimento dessas contratações está ligado ao uso de emendas parlamentares, que reforçam o caixa das prefeituras e viabilizam eventos que, em muitos casos, não seriam possíveis com recursos próprios.

O episódio ainda aborda investigações em andamento no Ministério Público e relembra a condenação do ex-prefeito de Buri por improbidade administrativa relacionada a esse tipo de contratação. Especialistas em finanças públicas ouvidos pela reportagem alertam que a combinação de contratos sem licitação e valores pouco transparentes cria ambiente favorável a desvios, embora o rastreamento dos recursos seja, na maioria das vezes, complexo.

Por Lala / 04/05/2026 às 14:30

Imagem: Adobe Stock

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