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Homens devem parar, ouvir e repensar comportamentos, diz Antonio Banderas

De terno e gravata pretos e camisa branca, Antonio Banderas caminha pelo gramado de sua casa em Marbella, no sul da Espanha, na minha direção. É daqueles momentos em que a realidade mais se aproxima de um sonho. Os cabelos pretos e escovados que vimos nos filmes estão mais curtos e grisalhos. Aqui, não é o galã do cinema, mas o charme puro, em carne e osso. Impossível negar, ele é um sedutor. Aos 57 anos (leonino, comemora aniversário no dia 10 deste mês), faz mais sucesso que muitos dos garotos malhados que tomaram as telas nos últimos tempos. O segredo está no olhar maduro de quem sabe o que fala e nunca dá um assunto por encerrado sem ouvir você. A noite quente e abafada pede os trajes leves que os convidados da festa usam. La Gaviota, a mansão de paredes cor de laranja comprada nos anos 1990, é o cenário de comemoração de 20 anos de seu primeiro perfume, Diavolo (diabo em italiano). Depois dele, a marca de fragrâncias femininas e masculinas cresceu e Banderas se tornou a celebridade que mais vende perfumes no mundo. Natural de Málaga, a uma hora dali, ele passeia entre os convidados, tira fotos, se detém mais tempo ao cruzar com as amigas e atrizes Olga Kurylenko e Paz Vega. Varia entre o espanhol e o inglês com sotaque carregado, embora ostente uma considerável carreira internacional. José Antonio Domínguez Banderas tornou-se ator contrariando o pai, policial, e a mãe, professora. Chegou a ser preso ao se envolver com performances políticas em teatro de rua e, em 1982, foi descoberto pelo cineasta Pedro Almodóvar. Cerca de dez anos mais tarde, recebeu o convite para um teste em Hollywood. Não falava uma palavra em inglês, mas o produtor achou que ele fazia o tipo misterioso. Banderas diz que decorou as falas de Os Reis do Mambo por fonemas. Dali explodiu para a trajetória que conhecemos. Evita, com Madonna, A Máscara do Zorro, A Pele Que Habito e, agora, Genius: Picasso, série do canal National Geographic, que narra a vida do artista, também malaguenho. “Todos os dias de manhã, minha mãe me levava a pé para o colégio. Quando chegávamos a uma praça, ela apontava para uma das casas e falava: ‘Ali nasceu Picasso’ ”, conta Banderas divertindo-se com o comportamento repetitivo da matriarca. “Não tínhamos muitos ídolos na Espanha, então ele virou meu herói.” A ligação forte causou medo e fez o ator rejeitar dois convites anteriores para interpretar o pintor – o primeiro deles quando tinha apenas 25 anos. À série, entregou-se. Acordava às 2 horas da manhã e começava a maquiagem às 3. O processo durava mais de cinco horas – precisava moldar o nariz, mudar o queixo, colocar cabelo e sobrancelhas. “Eu dormia quatro horas por noite e, ao levantar para ir ao banheiro, andava como Picasso. Terminada a filmagem, levei uns dois meses até expulsá-lo do meu corpo. Olhava no espelho e enxergava aquele velho”, recorda. Foi dali direto para o set de uma comédia com Robert Downey Júnior e, em seguida, contracenou com Penélope Cruz em Dor e Glória, de Almodóvar. “Basta ele assobiar que eu vou”, comenta sobre o diretor.  Só se afasta do cinema quando está nas aulas do curso de moda na Central Saint Martins College, faculdade em Londres. Decidiu voltar a ser aluno há dois anos, ao encantar-se com a ligação entre vestimentas e comportamentos. “O que escolhemos para usar diz ao mundo sobre nós”, explica ele, que criou uma linha de roupas. Uma saxofonista de longos cabelos loiros e vestido prateado com fenda na perna agita os convidados da festa. Apesar do encontro para 200 pessoas ser regado a champanhe e vinho branco, Banderas bebe com parcimônia. Cuidadoso com o próprio corpo, corre e se exercita diariamente, mantém uma dieta saudável e não fuma mais. A atenção maior com a saúde veio há um ano e meio, após o susto com um infarto. Foi a namorada, a consultora financeira Nicole Kimpel, 37 anos, quem o salvou. “Estávamos preparando o café da manhã quando senti meus braços fracos e um formigamento que subiu até o queixo. Ela colocou uma aspirina sob a minha língua.” O remédio afina o sangue, que continuou a ser bombeado, garantindo oxigênio ao coração. “Não tive sequelas e me recuperei muito rápido”, afirma ele. “Sou um homem de sorte”, admitiu. “O encontro com a morte me deixou pensativo sobre o que interessa de verdade”, reflete. Pergunto quais são as suas prioridades. Primeiro, a filha, Stella del Carmen, 21 anos. A garota mora nos Estados Unidos com a mãe, a atriz americana Melanie Griffith. Separados depois de 19 anos de casados, Banderas diz que ela ainda é sua melhor amiga. Continua a lista citando amigos e, por fim, inclui no rol “a possibilidade maravilhosa de conhecer pessoas diferentes e curiosas”. Sua visão sobre o mundo permite que ele enxergue o futuro com otimismo. Descarta, por exemplo, que Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, consiga atrapalhar os progressos dos latinos. Também acredita na igualdade para as mulheres e defende os benefícios que isso trará. “Os homens devem parar, ouvir e repensar comportamentos. Só assim teremos um planeta melhor.” Torço para que ele esteja certo. Mas, sob a noite estrelada de Marbella, com horas contadas para que esse sonho chegue ao fim, o que resta é dançar. Fonte: Voz da Bahia 

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