Analistas dizem que FGTS para pagar dívidas é “enxugar gelo” em meio a juros altos

Especialistas avaliam que medida do governo tem efeito limitado e pode agravar problema estrutural das famílias brasileiras
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, também falou sobre o uso do fundo e afirmou que o Desenrola 2.0, novo programa para renegociação de dívidas, pode permitir o uso de recursos do FGTS para abater débitos.
As sinalizações preocupam especialistas e setores econômicos. A avaliação é de que a medida é pensada para o curto prazo e não traz uma solução estrutural para o endividamento, que está relacionado também ao atual patamar da taxa de juros. A Selic, mesmo após o corte anunciado pelo Banco Central, segue no maior patamar dos últimos 20 anos.
Juliana Inhasz, professora de economia do Insper, acredita que usar o fundo com essa finalidade é uma forma de retirar o “colchão” de segurança do trabalhador.
A especialista avalia que a medida apenas posterga um problema estrutural na sociedade brasileira: o reendividamento da população. Uma vez sacado para quitar dívidas, nada garante que aquelas pessoas não voltarão para o mapa de endividados no futuro. Inhasz acredita que o foco deveria ser voltado às causas, não aos resultados.
“Mesmo que empregada, a população tem renda muito baixa. A dívida é quase uma extensão da renda para promover acesso a itens considerados básicos”, explica.
Assim, além de não resolver completamente a questão da dívida, pode até ser um vetor para o aumento dela.
Consultora econômica e pesquisadora da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV EESP), Tatiana Pinheiro explica que “esse dinheiro pode virar consumo ou poupança. O que virar consumo, novas dívidas, a esse patamar de juros, pode sim resultar em inadimplência e aumento do endividamento à frente”.
Desde o fim do último programa do Desenrola, o Brasil registrou 9 milhões de novos inadimplentes. Em julho de 2023, quando o primeiro programa de renegociação de dívidas foi criado, havia 72,9 milhões de inadimplentes no Brasil. Já em fevereiro deste ano, esse balanço contabilizava 81,4 milhões.
Além da Selic, os juros que envolvem operações de crédito são ainda mais restritivos. Em fevereiro, o Banco Central informou que operações de crédito pactuadas com as famílias tinham média de juros de 62% ao ano. O número do rotativo do cartão de crédito, por sua vez, é de 435,88% ao ano.
Na análise de Flávio Ataliba, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), os dados evidenciam que a medida ajuda a resolver situações pontuais.
“No entanto, não muda a estrutura de juros altos, nem a dependência das famílias em relação a linhas de crédito caras como o cartão, cheque especial e o próprio crédito pessoal”, avalia.
Em outras palavras, no curto prazo pode até funcionar, mas o problema vai além e afeta não só a pessoa física como outros setores, como o imobiliário.
Hoje, o FGTS não é apenas uma poupança do trabalhador, mas também uma das principais formas de financiamento habitacional e imobiliário. O orçamento aprovado para esse segmento em 2026 é recorde, de mais de R$ 144 bilhões dentro de um total de R$ 160 bilhões em investimentos.
De acordo com a Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc), o fundo ajudou mais de 10 milhões de famílias a conquistarem a casa própria e movimentou aproximadamente R$ 1,3 trilhão em investimentos nos últimos 15 anos. Além disso, sustentou cerca de 2,3 milhões de empregos anuais no setor.
Em 2025, o FGTS financiou mais de 650 mil moradias, algo determinante para a queda do déficit habitacional, que diminuiu em 441 mil famílias entre 2023 e 2024. Essa é a maior redução já registrada em um único ano.
“Isso mostra o tamanho da dependência do mercado imobiliário em relação ao fundo, especialmente o Minha Casa, Minha Vida”, afirma Ataliba.
Poucas semanas atrás, o Conselho Curador do FGTS decidiu aumentar o teto de renda do programa Minha Casa, Minha Vida, beneficiando famílias brasileiras que buscam a casa própria, mas a medida pode ser prejudicada com o Desenrola 2.0.
Isso porque, como explica Tatiana Pinheiro, ao usar o FGTS para resolver o endividamento existe uma melhora parcial no balanço das famílias, mas enfraquecimento de uma das principais fontes de financiamento habitacional.
“O efeito líquido tende a ser uma leve restrição ao crédito imobiliário no curto prazo, especialmente em um ambiente de juros ainda elevados”, explica.
Já de acordo com Luiz França, presidente da Abrainc, a medida pode prejudicar a habitação e ampliar o problema social, considerando o déficit habitacional existente no país.
“Temos que entender que ele [FGTS] foi feito para a habitação, saneamento e infraestrutura. Se você começa a tirar recurso do fundo, as pessoas que precisam comprar moradia deixam de ter essa oportunidade. Ao entorno dos condomínios cria-se vida, quando você tira isso, tira uma expectativa de futuro”, afirmou.
A dívida brasileira
De acordo com Fábio Gallo, professor de Finanças da Fundação Getulio Vargas de São Paulo (FGV-SP), a medida será como “enxugar gelo”. O acadêmico identifica que a dívida no Brasil é como uma febre, não adianta dar remédio sem entender a causa.
Para ele, a raiz do endividamento nasce do descontrole da economia brasileira de um lado e de um problema sociocultural do outro.
“Temos um problema fiscal gravíssimo no país e esse é o pano de fundo que leva à doença principal, que tem como sintoma a inflação”, avalia.
Para controlar essa “febre”, que é a inflação, é preciso aumentar juros, um remédio amargo que desacelera a economia.
“Se deixa toda a busca de remédio e solução para a doença nas mãos do Banco Central. Aumentando os juros, você deixa as pessoas vulneráveis a desarranjos financeiros o que leva a esse endividamento que vemos no país”, explica.
Inflação alta, somada a juros elevados, cria créditos difíceis de serem pagos, o que resulta no nível de endividamento observado na sociedade brasileira.
Por Kaylan Anibal / 10/04/2026 às 09:00
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