Governo Lula negocia com EUA após pressão para classificar PCC e Comando Vermelho como terroristas

Conversa entre Mauro Vieira e Marco Rubio tratou da cooperação no combate ao crime organizado e da posição brasileira sobre as facções.
O governo do presidente Lula mantém negociações diplomáticas com os Estados Unidos sobre cooperação no combate ao crime organizado internacional. O diálogo ocorre em um momento em que autoridades americanas ampliam o foco sobre facções brasileiras como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV).
O tema ganhou espaço na agenda entre os dois países nas últimas semanas e passou a mobilizar as áreas de segurança e diplomacia.
A possibilidade de classificação dessas facções como organizações terroristas é acompanhada com cautela pelo governo brasileiro. O assunto foi tratado na noite de domingo (8) durante conversa telefônica entre o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, e o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio.Leia também:
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Segundo integrantes do governo brasileiro, o país defende ampliar a cooperação com os Estados Unidos no enfrentamento ao crime organizado, mas sustenta que o combate às organizações criminosas deve preservar a soberania nacional.
Dentro do governo americano, a avaliação em Brasília é de que a pressão sobre o tema tem sido impulsionada por um núcleo político ligado ao Departamento de Estado dos Estados Unidos, chefiado por Marco Rubio.
Segundo a leitura de integrantes do governo brasileiro, esse grupo é identificado como mais alinhado à direita americana e simpático ao campo político do ex-presidente Jair Bolsonaro.
O cenário ganhou novo peso com a chegada ao Brasil de Darren Beattie, assessor sênior do governo de Donald Trump responsável por propor e supervisionar políticas de Washington em relação a Brasília.
Nomeado recentemente para o cargo, Beattie é crítico do governo Lula e também da atuação do ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, no processo que resultou na condenação de Bolsonaro a mais de 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado.
A visita ocorre no mesmo período em que Bolsonaro pediu autorização a Moraes para receber Beattie na prisão. O ex-presidente está detido na Penitenciária da Papuda, onde cumpre pena de 27 anos e três meses por tentativa de golpe de Estado.
Dentro do governo Trump também defendem uma postura mais rígida contra organizações criminosas na América Latina o secretário de Defesa Pete Hegseth e o conselheiro da Casa Branca para segurança interna Stephen Miller.
Pessoas que acompanham o tema em Brasília afirmam que integrantes mais conservadores do governo americano teriam atuado internamente em Washington para endurecer posições recentes em relação ao Brasil.
Entre as propostas discutidas estaria a criação de sobretaxas de até 50% sobre produtos brasileiros, medida defendida por aliados de Trump como reação ao tratamento dado ao ex-presidente Jair Bolsonaro pelo Judiciário brasileiro.
Nos Estados Unidos, a hipótese de classificar facções brasileiras como organizações terroristas estrangeiras passou a ser discutida com mais intensidade nos últimos meses.
Caso esse enquadramento avance, poderá abrir caminho para sanções financeiras, bloqueio de ativos e restrições legais contra integrantes e apoiadores desses grupos no sistema financeiro internacional.
O Departamento de Estado dos Estados Unidos afirmou nesta terça-feira que considera facções brasileiras “ameaças significativas à segurança regional” por causa do envolvimento com tráfico de drogas, violência e crime transnacional.
Ao mesmo tempo, o órgão evitou antecipar uma eventual classificação dessas organizações como grupos terroristas.
No Brasil, autoridades sustentam que organizações como PCC e Comando Vermelho são enquadradas pela legislação nacional como organizações criminosas voltadas ao lucro, e não como grupos terroristas com motivação política ou ideológica.
Essa distinção é considerada central para o tratamento jurídico do tema.
Dentro do governo brasileiro, a avaliação é que a cooperação com os Estados Unidos na área de segurança deve avançar, mas sem abrir espaço para iniciativas que possam ser interpretadas como interferência externa ou gerar tensão diplomática.
O presidente Lula pretende reforçar a proposta de parceria no combate ao crime organizado em um encontro que deverá ter com Donald Trump em Washington nos próximos dias.
Fonte: O GLOBO






