
Na semana passada, apenas dois meses depois de assumir o cargo, o primeiro-ministro britânico Andy Burnham fez um aceno de reaproximação em direção a uma União Europeia abandonada pelo Reino Unido em 2016, quando a tese do Brexit venceu nas urnas por 52% a 48%.
Burnham escolheu o cenário a dedo: a conferência anual de seu Partido Trabalhista. Tão habilidoso quanto cauteloso, diluiu o assunto em meio aos 60 minutos de seu discurso, buscando a medida certa para passar sua mensagem.
Dez anos depois da saída do bloco europeu os números apontam que aquele foi um passo malsucedido. Estudos mostram que o PIB britânico foi afetado entre 6% e 8% e a produtividade da economia impactada negativamente entre 3% e 4%; os investimentos caíram entre 12% e 18% e os empregos ficaram entre 3% e 4% mais escassos.
Seis em cada dez cidadãos do Reino Unido acreditam hoje que a saída da União Europeia foi um erro. E 23% daqueles que votaram pelo Brexit em 2016 mostram-se arrependidos pela opção feita à época.
Andy Burnham deu a senha para o início de uma possível revisão do Brexit ao afirmar que a decisão de deixar Bruxelas para trás fez “mais mal do que bem”. Ao longo das próximas semanas o primeiro-ministro deverá medir temperatura e pressão da opinião pública e do meio político em relação ao assunto antes de propor caminhos mais específicos de reaproximação junto ao continente.
A agenda do líder britânico para os próximos dez anos sugere uma ampla reforma em áreas sensíveis como o sistema de assistência social. Isso requer altos investimentos só possíveis a partir de um crescimento econômico relevante. A solução dessa equação pode vir do reestabelecimento de relações mais profundas com a União Europeia, seu maior parceiro comercial.
Desde 2016 o Reino Unido já teve seis outros primeiros-ministros e Burnham foi o único a afirmar abertamente que o Brexit é um fracasso que exige correção de rota. No caso de uma nova adesão ao bloco europeu um novo plebiscito teria que ser convocado.
Líderes europeus reagiram com uma mistura de receptividade positiva e cautela à sinalização sobre uma possível reconexão do Reino Unido com a União Europeia. A cautela se deve às possíveis escolhas que estariam sobre a mesa para percorrer esse caminho. Há um consenso geral em Bruxelas e nas principais capitais europeias de que uma volta ao bloco seria bem-vinda desde que o Reino Unido não queira selecionar benefícios específicos do bloco, em lugar de uma adesão plena.
Evidentemente, espera-se um intenso diálogo político e econômico entre os dois lados. O líder britânico tem afirmado que o programa industrial “Made in Europe” destinado a valorizar os produtos do continente prejudicaria as empresas britânicas. Nessa quinta-feira dia 8 de outubro, em uma entrevista para a BBC o ministro francês das Finanças, Marc Ferracci, respondeu diretamente a essa preocupação de Londres: “Voltem e vocês estarão à mesa de negociações. Discutiremos todas essas questões juntos”.
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