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Endividamento das famílias brasileiras bate recorde e compromete quase 30% da renda, aponta Banco Central

Levantamento mostra aumento histórico no peso das dívidas sobre o orçamento familiar, enquanto governo prepara novo programa de renegociação que, segundo economistas, pode não solucionar o problema.

As famílias brasileiras nunca estiveram tão endividadas. Um levantamento do Banco Central revela que quase 30% da renda mensal das famílias está comprometida com o pagamento de dívidas, o maior índice já registrado. Nos próximos dias, o governo promete anunciar um novo programa de renegociação de dívidas, medida que, segundo economistas, não deve resolver a questão de forma definitiva.

A maior parte da população brasileira recebe valores próximos a um salário mínimo, e a renda muitas vezes não é suficiente para cobrir todas as despesas mensais. Com isso, muitas pessoas recorrem a empréstimos para equilibrar o orçamento no fim do mês, o que leva ao aumento do endividamento.

A analista Patrícia Lisboa da Silva enfrenta essa realidade.

“Negativaram meu nome, eu estou com nome sujo, tentando negociar outros e, realmente, junta tudo de uma vez: as despesas de casa, cartões de crédito, escola, etc. Aí a gente começa a analisar as prioridades, quais são as prioridades. Começa a pagar só o que é prioridade”, conta ao Jornal Nacional.

A situação enfrentada por Patrícia reflete a realidade de muitas famílias no país. Segundo o Banco Central, em fevereiro, o comprometimento da renda mensal com dívidas atingiu quase 30%, um recorde histórico. Já o endividamento total das famílias, em relação à renda acumulada em 12 meses, chegou a 50%, também o maior nível já registrado.

Atualmente, a taxa Selic está em 14,75% ao ano. Utilizada pelo Banco Central para controlar a inflação, ela influencia diretamente os juros de empréstimos e financiamentos. A definição da taxa é feita pelo Comitê de Política Monetária, que considera diversos fatores, incluindo o cenário fiscal do país. Para economistas, a falta de equilíbrio nas contas públicas dificulta a redução dos juros.

“O patamar de taxa de juros é praticamente insustentável. Estamos falando de taxa de juros reais de 7%, 7,5%. Isso é decorrente, entre outras coisas, de um processo que não foi feito pelo governo antes de segurar as contas públicas para ajudar o Banco Central a justamente conduzir uma política monetária mais acomodatícia, no sentido de corte de juros. Esse processo devia ter começado lá atrás, mas o governo não conseguiu ou não quis fazer um processo de ajuste mais forte e tem tido um custo”, afirma André Perfeito, economista Garantia Capital ao Jornal Nacional.

Com juros elevados, o peso das dívidas aumenta ainda mais sobre o orçamento das famílias. A inadimplência também cresceu. Em fevereiro, atingiu recorde de 4,4%. Em março, houve uma leve queda para 4,3%, mas o índice segue elevado. Nesse cenário, o acesso ao crédito fica mais difícil, já que as instituições financeiras aumentam as exigências para concessão de empréstimos.

“As famílias estão acessando linhas de crédito emergenciais. E é isso que faz uma grande diferença, porque a partir do momento que elas não têm acesso a linhas de crédito com juros mais acessíveis, elas acabam indo para o cheque especial, cartão de crédito rotativo, e aí os juros são significativamente maiores e pesam muito mais no orçamento das famílias”, explica Alessandra Ribeiro, diretora de macroeconomia da Tendências Consultoria.

Diante desse cenário, o governo prepara um novo programa de renegociação de dívidas. No entanto, especialistas avaliam que a medida pode ter efeito limitado.

“Essa não é uma função do Estado. Isso tem que deixar o mercado resolver. As pessoas encontrarem formas de renegociarem as suas dívidas, porque também é interesse da instituição financeira. O custo do crédito aumenta. Então, eu acho que essa deveria ser uma solução de mercado e não o governo estimulando, proporcionando esse tipo de política que poderá acabar estimulando artificialmente mais endividamento, mais gastos”, diz a economista Zeina Latif ao Jornal Nacional.

Por Kaylan Anibal / 30/04/2026 às 06:30

Foto: Marcos Santos USP Images

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