
Entre ganhadores e perdedores na eleição de domingo (25), quem saiu mal na foto deste pleito foram os institutos de pesquisa. A vitória de Lula passou longe tanto dos resultados dos trackings eleitorais quanto das análises feitas pelos especialistas dessas instituições.
Tanto que, na sexta-feira (23) que antecedeu a eleição, gestores, investidores e analistas simplesmente desconsideravam a possibilidade de derrota de Flávio Bolsonaro (PL).
Algumas casas chegaram a indicar em seus relatórios que a probabilidade de vitória de Flávio havia diminuído. Mas ninguém antecipou a virada.
Informações sobre as tendências eleitorais são valiosas para o mercado financeiro. Não à toa, esse segmento cresceu muito nos últimos anos, impulsionado por uma demanda cada vez maior. E custa caro.
Segundo fontes ouvidas pelo CNN Money, os contratos podem superar os R$ 500 mil, incluindo trackings diários e análises qualitativas sobre as tendências da disputa.
Nas últimas eleições, porém, ganhou força uma dinâmica de compartilhamento dessas pesquisas. As corretoras contratam os serviços e oferecem as informações a seus clientes — gestoras, family offices e outros investidores — como forma de atrair e fidelizar esse público.
Algumas organizam também encontros reservados, nos quais pequenos grupos de clientes têm a oportunidade de assistir a palestras de analistas políticos e fazer perguntas.
Grandes bancos também são clientes dessa indústria de pesquisa. No caso desses players de maior tamanho, os contratos preveem dados exclusivos e que não podem ser compartilhados – ou seja, são números que ajudam a nortear as decisões da gestão da instituição.
Sondagens sobre efeitos de eventos específicos – como a aprovação do fim da escala 6×1, por exemplo – também podem ser encomendados, a depender do plano contratado.
Tudo isso ajuda os investidores a se posicionarem diante de um cenário político que pode ter impacto direto sobre a economia e, principalmente, sobre o comportamento dos ativos financeiros. Só que, desta vez, a julgar pela reação dos mercados ao resultado das urnas, os sinais emitidos foram bastante equivocados.
“O sentimento no mercado foi de ter ficado sem ancoragem”, diz Lucas Aragão, sócio da Arko Advice.
Os trackings privados, aos quais têm acesso os grandes investidores, chegaram a apontar uma vantagem ainda maior de Flávio Bolsonaro do que aquela indicada pelas pesquisas públicas. E as análises não se limitavam à intenção de voto.
Muitas casas de análise fizeram leituras aprofundadas dos microdados, buscando identificar o comportamento dos eleitores por região, classe social e gênero. Também foram consideradas as tendências políticas de cada localidade, as possibilidades de migração de votos e os efeitos da abstenção sobre o resultado do segundo turno.
O objetivo era ir além da fotografia das pesquisas e tentar antecipar os movimentos do eleitorado na reta final da disputa. Ainda assim, as análises convergiram para uma conclusão que as urnas acabaram contrariando.
A intensidade da correção dos ativos financeiros na segunda-feira (26) confirma que, de fato, os investidores desconsideram por completo a chance de vitória de Lula. Não fosse isso, ao menos parte desse risco provavelmente já estaria incorporada aos preços.
Na avaliação de Christian Garman, da Eurasia Group, dois fatores ajudam a explicar o erro das pesquisas: a dificuldade de estimar quem efetivamente compareceria às urnas, diante de uma maior mobilização dos eleitores de esquerda, e as diferenças metodológicas entre os institutos.
Segundo ele, as pesquisas telefônicas tiveram desempenho melhor do que as presenciais, o que deve levar o setor a rever seus métodos.
“A indústria de institutos de pesquisa deve entrar em uma profunda reflexão”, afirma.
Entre profissionais do mercado financeiro, um dos efeitos desse episódio deve ser uma espécie de depuração do setor de pesquisas eleitorais.
A expectativa é que institutos e consultorias que demonstrarem maior rigor técnico, capacidade de adaptar suas metodologias às transformações no comportamento da sociedade e, principalmente, transparência sobre as limitações de suas projeções ganhem espaço.
Outro efeito esperado tem a ver com o preço. Lavareda observa que pesquisas realizadas “face a face” têm um custo muito mais alto do que as realizadas de forma digital, por exemplo.
“Se as duas deram o mesmo resultado, por que pagar tão mais caro?”, diz.
Uma indústria em expansão
O episódio coloca sob questionamento um mercado que cresceu de forma expressiva nos últimos anos.
Segundo levantamento sobre o setor, até 2 de outubro deste ano haviam sido registradas 2.087 pesquisas eleitorais no TSE (Tribunal Superior Eleitoral), realizadas por 239 institutos, com 2,88 milhões de entrevistados e um custo declarado de R$ 100,9 milhões.
Somente no último mês da campanha para o primeiro turno, 45 novos institutos passaram a atuar nesse mercado, enquanto outras 816 pesquisas foram registradas, segundo levantamento obtido pela CNN Brasil.
O crescimento do número de empresas e levantamentos, no entanto, não foi acompanhado necessariamente por uma melhora da capacidade de antecipar os resultados eleitorais.
O problema tampouco é exclusivamente brasileiro. Um estudo internacional de Will Jennings e Christopher Wlezien, publicado na revista Nature Human Behaviour, analisou 26.917 pesquisas realizadas em 45 países desde 1942 e identificou um erro absoluto médio de 2,51 pontos percentuais nas eleições presidenciais, sem uma tendência de aumento ao longo das décadas.
Para o cientista político Antonio Lavareda, há duas hipóteses que podem explicar resultados divergentes: um erro de medição e um problema de compreensão.
Considerando que todas as pesquisas apontaram, de forma unânime, para o mesmo resultado, Lavareda afirma que não houve um problema estatístico, mas sim uma questão de compreensão. Ou seja, parte das informações apontadas pelas personagens não foi corretamente interpretada.
Como exemplo, ele cita o fato de que as pesquisas conhecidas na véspera da eleição mostravam uma vantagem numérica de Flavio , mas uma rejeição do candidato do PL três pontos superior à do candidato petista.
“Nunca no Brasil o candidato mais rejeitado venceu o segundo turno”, observa.
No mercado financeiro, essa questão é fundamental. Os investidores não compram apenas uma fotografia da intenção de voto. Pagam também por análises que procuram identificar tendências, antecipar mudanças no comportamento do eleitorado e estimar probabilidades de vitória.
É justamente nessa capacidade de interpretação que a eleição de domingo expôs uma fragilidade importante.
O risco das análises convergentes
Outro aspecto que merece atenção é a convergência das avaliações. Embora as instituições utilizem metodologias diferentes e disponham de bases de dados próprias, as conclusões sobre o segundo turno caminharam predominantemente na mesma direção.
Esse comportamento pode refletir um fenômeno conhecido como herding, ou efeito manada, no qual estimativas e interpretações tendem a se aproximar de um consenso dominante.
Há também uma questão de incentivos. A expansão dos serviços de análise política criou um mercado no qual institutos, consultorias, corretoras e investidores mantêm relações comerciais cada vez mais estreitas.
O modelo não representa, por si só, um conflito de interesses. Mas aumenta a importância da transparência sobre metodologias, fontes de financiamento e critérios utilizados para transformar dados eleitorais em probabilidades de vitória.
A eleição de domingo vai provocar reavaliação de quem faz, e de quem contrata pesquisas. Mas isso não significa que a demanda por essas informações vai acabar.
“Haverá um acirramento de metodologia, e o mercado vai buscar a melhor versão. Mas não vejo que esse instrumento ficará obsoleto”, diz Aragão, da Arko.
“A indústria vai ser demandada. Pode ter críticas, mas permanece o melhor instrumento disponível de mensurar opinião pública”, conclui Garman, da Eurasia.
No caso desta eleição, nem o volume de informações disponíveis nem a sofisticação das análises foram suficientes para antecipar o resultado.
E, para um mercado que paga caro justamente para reduzir a incerteza, essa é uma questão que vai muito além da reputação dos institutos de pesquisa.
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