
Angola começa a transformar a produção de frutas em uma nova frente de diversificação da economia, ainda fortemente dependente do petróleo. A banana aparece como principal aposta do país. Além de ser a fruta mais produzida, é também o produto agrícola de maior destaque nas exportações.
Na safra 2024/25, Angola produziu 7,2 milhões de toneladas de frutas, segundo dados do Ministério da Agricultura e Florestas. O volume representa crescimento de 5,5% em relação ao período anterior.
O desafio, agora, é transformar essa produção em negócios. A distância entre o que Angola produz e o que consegue vender ao exterior ainda é grande. Em 2024, por exemplo, o país exportou pouco mais de 6,8 mil toneladas de banana, segundo dados do UN Comtrade.
O governo angolano, em parceria com a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), vem trabalhando para melhorar as condições fitossanitárias e ampliar o acesso dos produtores aos mercados internacionais.
Banana é a principal aposta
A banana aparece como principal destaque entre as fruteiras cultivadas nas explorações agrícolas empresariais, respondendo por 74,9% da produção das principais frutas.
Foram cerca de 3,46 milhões de toneladas de banana, na comparação com 532,6 mil toneladas de citrinos, 500,4 mil toneladas de abacaxi, 193,1 mil toneladas de manga e 55,1 mil toneladas de abacate.
Portugueses apostam nas frutas
Um exemplo da transformação da agricultura angolana está na Novagrolider, uma das maiores empresas agrícolas do país. Braço do grupo Lider, foi criada pelos irmãos portugueses João e José Macedo em 2017 e reúne quatro fazendas: Bom Jesus, Caxito, Quibala e Porto Amboim.
As propriedades somam 21 mil hectares, que cultivam banana, manga, mamão, pitaia, goiaba, uva e melão, além de alguns vegetais.
A empresa já tem parte da produção voltada ao mercado externo, mas ainda concentra seus negócios no mercado angolano.
“Atualmente, 20% da produção é destinada à exportação, mas queremos ampliar. Outros 30% atendem lojas próprias da empresas, enquanto o restante é vendido a pequenos produtores, que revendem os produtos”, afirma à CNN Bárbara Pereira Contini, engenheira agrônoma brasileira, que há oito anos mora em Luanda e trabalha na Novagrolíder
Segundo ela, a diversidade climática das fazendas permite testar culturas diferentes. “A proximidade das operações com o Brasil vem do fato de as quatro fazendas terem climas distintos, uns parecidos com Minas Gerais, outros com a Bahia”, explica Bárbara. “Por isso, por exemplo, trouxemos café do Brasil para plantar aqui.”
Em Caxito, onde esteve a reportagem da CNN, por exemplo, são as frutas tropicais. Já Quibala é uma das áreas destinadas ao café.
A produção em grande escala, porém, precisa enfrentar um dos maiores gargalos da agricultura angolana: colocar a fruta no mercado internacional. Segundo dados da AGT
(Administração Geral Tributária) compilados pelo jornal angolano Expansão, as exportações de banana vinculadas ao Programa de Apoio à Produção, Diversificação das Exportações e Substituição das Importações alcançaram US$ 5,4 milhões em 2025, alta de 54,9% em relação aos US$ 3,5 milhões registrados em 2024.
Em volume, a mesma base aponta crescimento de 6,8 mil toneladas para 9,6 mil toneladas entre 2024 e 2025.
Os dados do UN Comtrade mostram que Angola exportou 6,83 mil toneladas de bananas em 2024, no valor de aproximadamente US$ 3,48 milhões.
Portugal é o principal destino. Em 2024, o país europeu comprou 6,47 mil toneladas de banana angolana, aproximadamente 95% do volume exportado por Angola naquele ano.
Namíbia e África do Sul apareceram bem atrás, com 175 toneladas e 173 toneladas, respectivamente.
A logística é um dos grandes obstáculos
Para aumentar as exportações, porém, Angola precisa resolver um problema que começa dentro do próprio país: a logística. “Banana só fazemos transporte por mar. Todas as outras frutas são via aéreas, mas a dificuldade são as estradas internas”, explica Bárbara
A Novagrolider vem buscando alternativas para superar esse obstáculo. Em 2024, a empresa firmou acordo com a companhia aérea angolana TAAG para ampliar o transporte de frutas para a Europa.
A Agência Reguladora de Certificação de Carga e Logística de Angola (ARCCLA) também vem promovendo o potencial das frutas tropicais do país e destacou o Corredor do Lobito como uma infraestrutura estratégica para o escoamento da produção.
O corredor, que liga o interior da África ao Atlântico, pode ajudar a reduzir um dos principais custos para produtos agrícolas: levar a produção até os mercados consumidores.
Mão de obra: desafio e oportunidade
Outro desafio são os trabalhadores. Assim como no Brasil, a mão de obra precisa ser treinada e orientada. Entretanto, a diferença é que os angolanos ainda estão dispostos a viver no campo.
“A mão de obra está disponível e é diferente do Brasil. Eles querem ficar no campo, onde têm sua própria lavra e conseguem entender o trabalho”, diz Bárbara.
O que falta para o país crescer
Para a brasileira residente no país, os desafios angolanos antecedem o problema de infraestrutura no campo. “Embora como expatriada eu tenha acesso a água tratada, energia 24 horas, refeitório e moradia dentro das fazendas, sou parte de uma população que não tem saneamento básico e saúde.”
Nas estradas e no transporte, porém, ela percebe avanços. “Vias e transporte, pouco a pouco, estão superando. Vejo uma mudança grande.”
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