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Diplomacia agrícola não deve retroceder, seja qual for resultado eleitoral

O resultado das eleições presidenciais pode mexer com as estratégias de diplomacia agrícola e com as prioridades nas relações com parceiros comerciais, o que divide opiniões na cadeia agropecuária. De um lado, especialistas acreditam que uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro (PL) pode estreitar ainda mais as relações com os Estados Unidos, enquanto outros temem que um afastamento das pautas ambientais que abriram mercados exigentes aos produtos brasileiros nos últimos anos possa ter efeitos colaterais no longo prazo.

Se Flávio vencer o segundo turno, no próximo dia 25 de outubro, a relação política com a China pode se tornar mais cautelosa. Porém, a mudança de posicionamento diplomático não necessariamente teria impacto imediato sobre o comércio de produtos agrícolas com o país asiático, disseram representantes do setor.

Na avaliação de Larissa Wachholz, especialista em China e fellow do Cebri (Centro Brasileiro de Relações Internacionais), o principal efeito de um eventual alinhamento maior do Brasil aos Estados Unidos poderia aparecer nos investimentos chineses no país.

“A China tem olhado para a América Latina com muita cautela, buscando observar onde o seu investimento é bem-vindo, onde as suas relações comerciais são bem-vindas e onde não são”, afirmou na última quarta-feira (7), durante um evento do Insper Agro Global, em São Paulo.

O embaixador Rubens Barbosa, que serviu de 1994 a 2004, concorda que, nos próximos dois ou três anos, as relações comerciais com a China estarão preservadas, mesmo se Flávio Bolsonaro ganhar. Na avaliação dele, o setor agropecuário não vai querer perder a influência que construiu no âmbito técnico dessa relação.

“Não vão fazer nada que prejudique o agro. Não vejo o Brasil tomando medidas contra empresas chinesas, porque isso provocaria retaliação do país asiático”, explicou Barbosa à reportagem.

Ele reitera que a diplomacia agrícola vai continuar com a diversificação de mercados e novos acordos comerciais. “O Brasil deve manter uma posição de certa independência e distância tanto em relação à China quanto aos Estados Unidos, apesar das declarações de proximidade e alinhamento com os EUA”, acrescentou.

O agro, lembra o embaixador, não permitiria entraves nas relações comerciais com seu maior parceiro.

Wachholz, por sua vez, recorda que o cenário pode se tornar mais sensível à medida que cresce a disputa de influência entre Estados Unidos e China na América Latina. Em documentos internos, os americanos têm deixado explícito que consideram a região uma área de influência dos EUA.

Nesse contexto, uma aproximação de Brasília com Washington poderia afetar a disposição de empresas chinesas para investir em determinados setores brasileiros, principalmente aqueles considerados estratégicos.

“Eles [os chineses] não querem se estabelecer em locais de confronto porque isso impõe um risco muito grande. Os investimentos precisam fazer sentido econômico e eles só vão fazer se houver estabilidade jurídica”, acrescentou.

É nos investimentos que Wachholz vê maior possibilidade de mudança. Para a especialista, a China poderia participar do desenvolvimento de infraestrutura e de novas cadeias ligadas aos biocombustíveis, o que dependerá do ambiente oferecido pelo Brasil.

Além da China, outro mercado importante para a América Latina é a Europa. Com a aprovação do acordo UE-Mercosul, espera-se um intercâmbio maior de produtos agropecuários, ainda que haja resistência do setor produtivo europeu, que se sente ameaçado pela escala da oferta brasileira.

No caso de cadeias que desenvolveram um trabalho intenso de rastreabilidade e certificação de sustentabilidade nos últimos anos, há certo risco para os avanços na abertura de mercados, na agregação de valor e na comprovação do cumprimento de exigências, segundo fontes que preferiram falar sob condição de anonimato.

Uma delas afirmou que ainda é cedo para avaliar quais seriam as estratégias comerciais em uma eventual mudança de governo, especialmente sem saber quem ocuparia postos importantes, como os ministérios da Agricultura e Pecuária e das Relações Exteriores. A imprevisibilidade, porém, divide integrantes do agronegócio dentro e fora da porteira.

O principal receio pode estar relacionado à articulação entre a pauta exportadora e a agenda ambiental, incorporada ao agronegócio ao longo dos anos. O jornal britânico Financial Times, por exemplo, questionou se Flávio reduziria as exigências ambientais, seguindo a estratégia do pai, Jair Bolsonaro, ou adotaria um caminho mais moderado caso saia vitorioso destas eleições.

Segundo o jornal, essa é a maior preocupação das agências responsáveis pela regulação do desmatamento.

“Na parte ambiental, o agro tem uma posição muito forte contra a legislação atual de proibição do desmatamento ilegal. Acho que essa discussão vai avançar e pode gerar problemas e efeitos econômicos. Por isso, haverá cuidado”, considera Barbosa.

Marcos Jank, pesquisador e professor do Insper, também não espera uma ruptura comercial com a China em um eventual governo Flávio, mas considera possível uma mudança no grau de proximidade política entre Brasília e Pequim.

Para Jank, a disputa entre as duas potências já tornou o ambiente comercial mais complexo, e há, internacionalmente, “um ambiente mais agressivo, mais complicado, sem regras”. Uma eventual vitória de Flávio poderia acrescentar a esse cenário uma mudança de posicionamento do Brasil, com maior proximidade de Washington.

“Talvez o Lula fosse mais próximo da China, talvez o Flávio vá ser mais próximo lá dos Estados Unidos”, disse. Na avaliação dele, isso não significa que o Brasil deixaria de negociar com Pequim. A dimensão do comércio agrícola entre os países, segundo Jank, cria incentivos econômicos para que a relação continue.

O especialista defende que o Brasil aproveite a necessidade de grandes mercados de contar com fornecedores de alimentos para se posicionar como um parceiro comercial confiável.

“Você tem que olhar a essencialidade dos nossos produtos, e [o Brasil] se colocar como um suprimento confiável de volume, preço competitivo, para todo mundo, para qualquer tipo de país”, afirmou.

É o caso das carnes. Ricardo Santin, presidente da ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal), afirmou que não vê, neste momento, motivo para esperar uma mudança significativa nas exportações de carnes caso Flávio seja eleito. “Frango não tem partido nem ideologia. Não dá para misturar isso”, afirmou.

Santin disse que o setor continuará trabalhando independentemente de quem ocupar a Presidência ou os ministérios e destacou a dependência mútua entre o Brasil e os mercados compradores.

O Brasil responde por cerca de 37% do comércio global de carne de frango, entre 25% e 30% do de carne bovina e 15% do de carne suína. Por isso, a avaliação é de que uma mudança de orientação política não deveria alterar a estratégia comercial das empresas compradoras, que dependem dos produtos brasileiros. “Não carimbamos nossas proteínas com ideologia ou partido”, reforçou.

De acordo com o representante da ABPA, os embarques de proteínas brasileiras à China cresceram mesmo em meio a mudanças de governo e a polêmicas, inclusive durante a gestão de Jair Bolsonaro, pai de Flávio.

Para o executivo, a experiência recente das relações entre Brasil e Estados Unidos mostra que disputas políticas não necessariamente interrompem os fluxos comerciais. Santin citou o tarifaço imposto pelo governo de Donald Trump ao Brasil e afirmou que, mesmo durante o período de tensão, as exportações brasileiras continuaram avançando.

Fonte: Matéria Original

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