
Em meio ao acirramento da disputa pelo mercado de aplicativos de delivery no Brasil, o iFood, companhia controlada pela Prosus, anuncia um pacote de investimentos de R$ 24 bilhões para o ano fiscal de 2027, que termina em março do próximo ano.
O volume é 41% acima do ciclo anterior, que havia sido anunciado em agosto do ano passado. Do novo montante, R$ 10 bilhões serão destinados a melhorias nas plataformas para restaurantes e novas áreas de entregas.
Este é o primeiro pacote de recursos anunciado pela gigante do setor após a chegada no mercado brasileiro dos concorrentes chineses 99Food e Keeta, que ainda buscam espaço nas cidades. As duas rivais chegaram ao Brasil nos últimos meses de 2025.
Ainda assim, o CEO do iFood, Diego Barreto, diz que o aumento nos investimentos no país para este próximo ciclo não está, necessariamente, relacionado a entrada dos novos concorrentes no mercado de entregas de refeições. Segundo ele, a evolução é constante.
“Claro que não dá para ignorar a entrada de novos players, mas a gente vem crescendo os investimentos nos últimos três anos. Se esse fosse o motivo, significaria que eu não teria me preparado em inovação. E é ao contrário. Eu continuo em uma avenida de construção de vantagem competitiva”, diz Barreto, em entrevista ao NeoFeed.
Além da ampliação de recursos em 12 meses, a companhia anuncia a entrada de mais segmentos nas entregas: pet shop, bebidas e presenteáveis (como lojas de brinquedos). Eles se somam a farmácias e supermercados, que hoje já respondem por 30% da receita do iFood. Há três anos, eram 5%.
“Parte destes investimentos tem relação direta com as duas verticais atuais e essas novas. Só em mercados queremos crescer 50% e, em farmácias, 70%. Isso mostra que não estamos apenas olhando para a competição com o delivery de comida”, afirma.
Segundo o CEO, o plano é que o segmento além dos restaurantes, e que inclui essas novas atuações, passe a responder por metade do faturamento da companhia até 2030. Somando as três avenidas que agora integram o ecossistema de entregas com as que já existem, o volume pode alcançar 40% do GMV da empresa em três anos. Isso significa um volume transacionado de R$ 60 bilhões.
O modelo já começa com a presença na plataforma dos três principais grupos do segmento de pet shop no País: Petz Cobasi, Petlove e Petland. Na visão de Barreto, isso não representa uma concorrência direta com essas companhias e sim uma oportunidade de ampliação de mercado para as empresas.
A partir de outubro, a plataforma vai oferecer serviços de assinatura para quem faz compras recorrentes de produtos para seus animais de estimação. “A pessoa vai lá e diz que todo dia 5 quer receber em casa uma ração específica. Esse processo de especialização vai ser nosso caminho para estas verticais. Vou ajudar a digitalizar o canal desse comerciante”, afirma o CEO do iFood. “Eu tenho competências que são diferentes.”
No caso de bebidas, significa entrar agora em uma competição direta com o aplicativo de entregas da Ambev, o Zé Delivery. Já integram a plataforma do iFood unidades do Oxxo e adegas, que vendem tanto cervejas como Brahma e Heineken, como vinhos e refrigerantes.
Investimentos em IA
A tecnologia segue sendo um carro-chefe nos aportes da companhia. Para este ciclo, o iFood reservou R$ 2 bilhões para ampliar sua infraestrutura de inteligência artificial (IA) proprietária. O objetivo é aprimorar a personalização do atendimento aos usuários do aplicativo.
“Há três anos, a gente tomou a decisão de começar o nosso próprio modelo de IA. A diferença em relação ao modelo da OpenAI, por exemplo, está no treinamento e como eu uso esses dados. Eu tenho um perfil hoje de 65 milhões de pessoas. Cada um que abrir o aplicativo vai ter uma recomendação diferente”, explica Barreto.
Ele complementa: “Isso é treinar meu modelo, com mais parâmetros e investimentos em tokens. É o nosso large commerce model (LCM). Eu crio o que a gente chama de user profile (perfil do usuário).”
Também estão incluídos R$ 1 bilhão para o iFood Benefícios, plataforma corporativa que oferece vale-alimentação e vale-refeição, e mais R$ 5 bilhões em aportes e créditos para pequenas e médias empresas, via iFood Pago.
Além de ajudar a melhorar a experiência na plataforma, o iFood também vai, a partir de agora, auxiliar o estabelecimento a levar mais clientes para o espaço físico, principalmente nos horários em que os salões ficam mais ociosos.
Para Barreto, não é uma contradição levar clientes direto para consumir no restaurante. Para ele, no final, isso auxilia o comerciante a manter a rotatividade de seu negócio. E ajuda a ampliar o volume de clientes, inclusive por meio de delivery.
“Aqui a questão não é receita e sim ajudar a resolver a queda no fluxo do salão. Eu estou pegando toda minha capacidade de IA para ajudar o comerciante a entender exatamente o que o cliente quer e incentivar a ida para o restaurante”, afirma.
Os testes começaram há seis meses em Campinas e Curitiba e vão chegar a São Paulo ainda neste mês. “Eu vou permitir ao comerciante descobrir quem está perto e consome no seu restaurante, com a IA. Ele vai poder mandar um benefício a esse cliente. Quero ajudar a sustentabilidade do negócio”, diz Barreto. “E todo o ecossistema ganha com isso.”
No ano fiscal de 2026, que encerrou em março deste ano, o iFood alcançou receita de R$ 10,1 bilhões, com crescimento de 36% na mesma base do período anterior. O volume total de vendas (GMV) atingiu R$ 150 bilhões. O horizonte da companhia é crescer 20% nesta linha no atual ano fiscal.
Mesmo com o avanço de recursos em novas áreas além das entregas de restaurantes, a companhia liderada por Barreto vem travando, nos últimos meses, uma batalha jurídica contra 99Food e Keeta, sob acusações mútuas de concorrência desleal e espionagem. Há processos tramitando na Justiça e no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).
Na Bolsa de Amsterdã, as ações PRX, da dona do iFood, acumulam queda de 32,2% em 2026. O valor de mercado da Prosus é de € 79,5 bilhões.
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