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Análise: política de Trump ameaça apoio de produtores rurais nos EUA

A política comercial de Donald Trump, além de comprometer relações construídas ao longo de anos, pode atingir uma parcela do eleitorado que sustenta sua força política nos EUA, os produtores rurais.

O problema aparece com nitidez na carne bovina. As exportações americanas de carne bovina para a China caíram de 215 mil toneladas em 2024 para 70 mil toneladas em 2025, uma retração de 68%, segundo dados da Reuters Breakingviews, com base nos relatórios do Departamento de Agricultura dos EUA.

A redução do rebanho e os preços elevados limitaram a competitividade americana, enquanto restrições às habilitações de frigoríficos dificultaram o acesso ao mercado chinês. Em meio às tensões entre Trump e Xi Jinping, 400 frigoríficos americanos estão sem habilitação para exportar à China desde meados de maio.

Em janeiro de 2026, os Estados Unidos tinham 27,6 milhões de vacas de corte, segundo o USDA, 12,7% menos do que em 2019. A safra de bezerros também encolheu: foram 32,9 milhões em 2025, queda de 9,3% em relação a 2018.

Em análise publicada em 8 de outubro, a Reuters Breakingviews argumenta que uma eventual mudança de orientação política a partir de agora poderia devolver previsibilidade ao comércio, mas não necessariamente recuperaria os mercados perdidos. Isso porque quando um importador encontra outro fornecedor capaz de atender às suas necessidades, não há garantia de que voltará ao anterior, mesmo que as barreiras sejam removidas. A Austrália, por exemplo, ampliou sua presença no mercado chinês.

O dilema entre o consumidor e o produtor

Nesse contexto internacional e com menos animais para abate, Trump buscou ampliar as importações de carne bovina para aliviar os preços pagos pelos consumidores americanos.

Ocorre que isso afeta fortemente o pecuarista americano. Em reportagem de setembro, a Foreign Policy  afirmou que presidente da American Farm Bureau Federation, uma das principais organizações do agronegócio americano, classificou a medida como um golpe na rentabilidade dos pecuaristas.

A revista também aponta um segundo risco: a confiança do consumidor. Parte dos pecuaristas teme que a entrada de carne importada de procedência e qualidade pouco conhecidas prejudique a reputação da carne americana, embora isso seja apresentado como uma preocupação do setor, não como um problema comprovado dos produtos importados

Trump fica, assim, diante de dois objetivos difíceis de conciliar, ou baratea os alimentos para a população ou cria condições para que os pecuaristas recuperem a rentabilidade. É um conflito especialmente sensível para um presidente que construiu parte de sua agenda sobre a promessa de priorizar a produção nacional.

A base rural começa a cobrar a conta

A insatisfação com a política de Trump não ocorre exclusivamente na pecuária nem pode ser atribuída a uma única medida. Ela se desenvolve em um ambiente de custos elevados, dificuldades financeiras e incerteza sobre as condições de acesso aos mercados.

Em 5 de junho, o instituto Brookings publicou uma análise de William A. Galston sobre a queda do apoio ao presidente em áreas rurais. O estudo destaca que o desgaste entre eleitores rurais republicanos tradicionais vinha recebendo menos atenção do que a perda de apoio entre outros grupos que haviam contribuído para a vitória de Trump em 2024.

Segundo os dados citados pelo Brookings, a aprovação líquida de Trump entre eleitores rurais caiu de +20 pontos no início de 2025 para -14 pontos em maio de 2026. Entre eleitores brancos de áreas rurais, o saldo passou de +27 para -6 pontos.

O dado não prova que a política comercial, isoladamente, tenha provocado o desgaste. Mas a análise relaciona a insatisfação econômica às tarifas, à redução da demanda por produtos agrícolas americanos, ao encarecimento de equipamentos e fertilizantes e ao aumento dos custos de energia.

Em junho, o The Washington Post também retrata que agricultores que haviam apoiado Trump passaram a questionar os resultados de suas políticas. A reportagem descreve um ambiente de incerteza comercial e dificuldades financeiras, no qual produtores começaram a expressar dúvidas sobre a capacidade do governo de melhorar as condições de seus negócios.

Claro que isso não mostra que o produtor rural americano abandonou o Partido Republicano, mas que esses eleitores deixaram de ter uma tolerância a qualquer política do partido ou do presidente em exercício.

O problema não é apenas a eleição de novembro

A proximidade das eleições legislativas americanas em novembro aumenta a pressão sobre o governo. Os republicanos precisam demonstrar que estão respondendo à preocupação dos consumidores com os preços, mas as iniciativas adotadas podem provocar resistência entre pecuaristas e entidades agrícolas.

A dificuldade de Trump é que esses objetivos não dependem apenas de anúncios. A recomposição do rebanho exige tempo; a redução dos custos depende de condições de mercado e de fatores geopolíticos; e a recuperação das exportações exige que os compradores voltem a encontrar vantagens econômicas em negociar com os Estados Unidos.

A política de Trump parte da promessa de colocar os interesses americanos em primeiro lugar. O caso do agronegócio mostra, porém, que essa definição não é simples. Os interesses de consumidores, produtores, frigoríficos, exportadores e indústrias que dependem de insumos importados nem sempre apontam na mesma direção.

O que essa disputa ensina ao agronegócio brasileiro

Para o Brasil, a disputa entre Washington e Pequim abre oportunidades, mas também oferece uma advertência.

A transferência de parte das compras chinesas para fornecedores brasileiros demonstra a capacidade do país de ocupar espaços em mercados internacionais. Ao mesmo tempo, mostra como os fluxos comerciais podem mudar quando as condições de acesso aos mercados se alteram.

A China pode comprar mais do Brasil quando enfrenta dificuldades para importar dos Estados Unidos. Mas a qualquer momento também pode impor tarifas, cotas ou outras restrições para administrar seu próprio mercado.

Como já demonstrou matéria da CNN, não há indicações de que novo presidente do Brasil, qualquer que seja ele, vá alterar as estratégias de diplomacia agrícola de imediato, mas fica o alerta de que a diversificação de fornecedores é uma estratégia do comprador  e não uma garantia permanente para qualquer exportador.

Fonte: Matéria Original

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