
O eleitor brasileiro, habituado com as urnas eletrônicas, costuma estranhar o uso do voto em papel nos Estados Unidos. O sistema eletrônico até é usado pelos americanos, mas como um complemento às cédulas impressas.
Em parte, porque nos EUA não há uma entidade central que organize as eleições em todo o território, como faz o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) no Brasil, e cada estado decide que sistema usar. Em outra, questões culturais explicam por que a urna eletrônica ainda não se popularizou no país.
No dia 3 de novembro, acontecem as Eleições de Meio de Mandato, também conhecidas como Midterms, quando americanos poderão escolher novos representantes para a Câmara e o Senado.
Saiba de que formas eles podem votar e por que a cédula de papel ainda domina as seções eleitorais
Como os americanos votam?
É possível votar de três maneiras diferentes nos EUA: pelo correio, quando existe uma justificativa; antecipadamente, também para evitar concentração de eleitores nas seções; e presencialmente, no dia oficial da eleição.
Quase todas as cédulas nos EUA já são contadas usando computador, segundo o laboratório de estudos de eleições do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts).
O método mais popular é o do scanner óptico, que lê cédulas de papel e contabiliza os resultados.
Alguns distritos já utilizam diretamente a urna eletrônica, mas em menor proporção. Nesses casos, elas ainda têm um “sistema de auditoria em papel verificável”, que imprime as escolhas feitas pelo eleitor e é retido no local para evitar compra de votos.
Funcionários eleitorais apuram votos das eleições norte-americanas de 2020 • Foto: Rebecca Cook – 03.nov.2020 / Reuters
A EAC (Comissão de Assistência Eleitoral dos EUA) defende que o papel fornece um registro independente.
“Ele existe à parte do software de qualquer sistema e oferece às autoridades um meio de conferir a apuração com absoluta segurança, por meio de auditorias e recontagens após a eleição.”
Segundo a Pesquisa de Administração Eleitoral e Votação de 2024 da entidade, mais de 98% das jurisdições utilizam atualmente cédulas de papel ou sistemas com registro em papel verificado pelo eleitor, uma proporção que “continua a crescer”.
Por que é tão diferente? Descentralização explica
A falta de uma organização central para as eleições reflete uma tradição anterior à votação eletrônica.
A Constituição americana determina que os 50 estados controlem os horários, locais e a condução das eleições. As zonas de voto são ainda menores, separadas em distritos.
Os equipamentos de votação são selecionados pelas jurisdições locais (principalmente condados e cidades) ou pelo próprio estado.
“Muitos especialistas em segurança eleitoral também consideram essa diversidade de sistemas uma vantagem de segurança, uma vez que não existe um ponto único de falha em âmbito nacional”, afirmou uma porta-voz da EAC (Comissão de Assistência Eleitoral dos EUA) à CNN Brasil.
A entidade, ligada ao governo federal americano, não administra eleições nem determina o uso de qualquer sistema específico – apenas cria diretrizes voluntárias.
05/11/2024 – Eleitor registra voto • Reprodução: Reuters
Americanos não confiam no sistema eletrônico
Nos anos 1970 e 1980, diferentes modelos de urna eletrônica foram testados nos Estados Unidos como complemento ao voto de papel.
Mas uma desconfiança sobre o sistema cresceu na eleição presidencial de 2000, disputada entre o republicano George W. Bush – que levou a vitória – e o democrata Al Gore.
Uma recontagem de cerca de 600 votos em um condado da Flórida expôs os problemas das antigas máquinas de cartão perfurado. O resultado no estado era decisivo para determinar quem ocuparia a Casa Branca no ano seguinte.
Por causa de fragmentos de papel que ficavam presos às cédulas, equipamentos ignoraram as marcações e leram votos válidos como “em branco”, levando a um processo judicial e a um pedido de auditoria que levantou a falta de confiança nos sistemas computadorizados.
Em resposta, o Congresso aprovou, em 2002, o HAVA (Help America Vote Act), que modernizou os equipamentos e estabeleceu padrões para os sistemas de votação.
Para especialistas do MIT, a mudança acelerou a substituição das máquinas antigas e contribuiu para a expansão das DREs, equipamentos que registravam os votos eletronicamente.
Por outro lado, a controvérsia em torno das DREs cresceu nos anos seguintes e contribuiu para a adoção de sistemas que mantêm um registro físico do voto, permitindo auditorias e recontagens.
Parte das barreiras para um modelo similar ao brasileiro inclui a confiança do eleitorado e de grupos políticos, além da necessidade de adaptação, dizem especialistas.
É o que mostra uma pesquisa conduzida pelo NIST (Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia, na sigla em inglês) que mapeou as perspectivas de especialistas sobre sistemas de votação eletrônicos criptografados de ponta a ponta em 2026.
As respostas ainda mostram que “de modo geral, os participantes reconheceram que a viabilidade da adoção em larga escala do modelo depende não apenas da robustez e segurança da tecnologia, mas também da consideração das questões humanas.”
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