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MENSAGEM DE DOMINGO: O poder

O poder intriga. A pessoa revestida de poder – qualquer um, de síndico a gerente, oficial ou político – deveria dar ouvidos ao que dela dizem seus subalternos. Vox Populi…

Mas não é o que acontece em geral. Prestamos mais atenção ao juízo dos pares e superiores, em busca de reconhecimento de quem tem poder de ampliar nosso poder. Assim, sobre os subalternos desaba aquele nosso outro lado perverso que tanto enumeramos em esconder aos olhos dos superiores.

Todavia, cavalo indomado, se não somos contidos pelas rédeas da boa educação, ai dos subalternos! Dê a uma pessoa despreparada uma fatia de poder, e saberá quem de fato ela é.

O poder, ao contrário do que se diz, não muda as pessoas. Faz com que se revele. É como o artista a quem faltavam pincel, tintas e tela, ou o assassino que, afinal, dispõe de arma.

O poder sobe à cabeça quando já se encontrava destilado, em repouso, no coração. Como o álcool, embriaga e, por vezes, faz delirar, excita a agressividade, derruba escrúpulos.

Uma vez investida de função, ou cargo, título ou prebenda, a pessoa despreparada se crê superior e não admite que subalternos contrariem sua vontade, suas opiniões, suas idéias e seus caprichos. Leia-se o conto "O Espelho", e entenderão o que digo.

Nele, um tratado completo de patologia do poder, o jovem Jacobina, de origem pobre,  é nomeado alferes. Descobre, pois, que "cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora; outra que o olha de fora para dentro…".

Há casos, por exemplo, que um simples botão de camisa é a alma exterior de uma pessoa – e assim também a polca, o voltarete, um livro, uma máquina, um par de botas, uma cavatina, um tambor etc".

Recolhido à Fazenda da tia, Jacobina se espanta por todos o tratarem de "senhor alferes". Sua "alma exterior" anula a "interior". Esses fazem do poder serviço e não temem o juízo de seus subalternos, nem mesmo críticas. Pois sabem que somos todos feitos de barro e sopro, e o que importa na vida é a bagagem subjetiva, não adereços objetivos".

Uma Crônica de Frei Beto

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